11 outubro 2008

"O Belo Só Continua Belo Quando Acompanhado Do Bom e Do Verdadeiro" 

Eugênio Mussak

15 junho 2008

"Leve a vida a sério e
você continuará a perdê-la –
a vida só é compreendida por meio da risada."

Shree Rajneesh, líder espiritual indiano.

A Política da Aids

Pela primeira vez a Organização Mundial da Saúde (OMS) admite que o risco de uma epidemia global de Aids entre heterossexuais é bastante reduzido e que as estratégias de prevenção promovidas pelas principais organizações de combate à moléstia podem ter sido mal focadas.

Os indícios de que os números da Aids estavam superestimados não são novos. No final do ano passado, a própria Unaids (a agência da ONU para lidar com a moléstia) corrigiu sua contabilidade e baixou a estimativa de infectados de 39,5 milhões (2006) para 33,2 milhões (2007).

Nos últimos meses, epidemiologistas, entre eles um ex-dirigente da OMS, vêm lançando fortes críticas ao trabalho das organizações e dos ativistas anti-Aids. Sugerem que, por força de lobbies, foram cometidos erros no combate à doença.

Um exemplo de enfoque equivocado seria o das campanhas educacionais voltadas para a população geral. Exceto pela África subsaariana, o risco de contrair Aids numa relação heterossexual é baixo. A transmissão só ocorre em uma de cada 500 a 1.000 cópulas com parceiro infectado. Teria feito mais sentido investir fatias maiores do orçamento em peças publicitárias dirigidas a grupos de risco, como homossexuais masculinos, usuários de drogas injetáveis e prostitutas e seus clientes.

Ocorre que, após as primeiras caracterizações da Aids como "peste gay" no início dos anos 80, médicos e ativistas julgaram oportuno ilidir o preconceito. Para tanto, trataram de desconstruir a noção de grupo de risco. Nunca é boa prática deixar que dados científicos sejam contaminados por decisões políticas, por mais corretas que sejam.

É fato que a Aids, por afetar um público influente, sempre recebeu atenção desproporcional em relação a outras doenças. Mas é igualmente inegável que, também por força de lobbies e de seus exageros, o mundo respondeu de forma no geral adequada à irrupção da Aids, que, mesmo despida de excessos retóricos, permanece um grave problema de saúde pública.

(Editorial da Folha de SP,11/06/2008).

14 junho 2008

"A vida é uma tragédia quando vista de perto e uma comédia quando vista de longe"

Charles Chaplin

07 março 2008

“As estrelas brilham, os homens sofrem”

Rubem Alves

“Um amigo de verdade o apunhala pela frente”

Oscar Wilde

23 novembro 2007

Chávez e o Império

O rei de Espanha mandou o presidente da Venezuela calar-se.  A euforia tomou conta de todas as direitas, mas também deixou confusa muita gente boa. O que Chávez havia dito durante a Conferência da Comunidade dos Países Íbero - americanos? Que o ex-primeiro-ministro espanhol, Aznar, é um fascista. O atual primeiro ministro da Espanha, Zapatero tomou a palavra para dizer que, embora tendo grandes divergências políticas com Aznar, achava que ele devia ser tratado com respeito. Zapatero não podia fazer diferente, tinha que se manifestar, porque sabia que seria cobrado na Espanha se houvesse se mantido em silêncio diante da crítica pública de Chávez. O que fez Chávez enquanto Zapatero falava? Mesmo tendo o som cortado, continuou a falar paralelamente, interrompendo Zapatero, insistindo em seus argumentos contra Aznar, lembrando que este havia apoiado o golpe de Estado que derrubou Chávez do poder por dois dias em 2002 (por ordem de Aznar o embaixador da Espanha foi o primeiro a reconhecer o governo golpista)... Chávez estava cheio de razão, mas, como muitas vezes, foi impulsivo, deselegante, infringindo a etiqueta da diplomacia etc. Nesse momento, impaciente, o rei Juan Carlos exclamou: "por que não se cala?" A imprensa das classes dominantes do Brasil exultou e aproveitou para achincalhar Chávez mais uma vez.


Por que tanta animosidade contra Chávez? Vejamos: quando Chávez foi eleito presidente da República pela primeira vez, em 1998, a Venezuela estava em falência política, suas classes dominantes, mergulhadas em profunda corrupção, desmoralizadas, não conseguiam mais governar. A maior riqueza do país, o petróleo, entregue às multinacionais de petróleo americanas, era partilhada por estas com as elites tradicionais e a alta classe média, ambas americanizadas, vivendo mais nos Estados Unidos que em seu país, seus filhos indo em massa estudar na Flórida, falando mais inglês que espanhol, acostumados todos a ver a Venezuela como uma fazenda de onde extraiam sua boa vida.


A Venezuela é o terceiro maior produtor de petróleo do mundo e exporta a maior parte da produção para os Estados Unidos. Chávez começou por questionar a dominação americana sobre o petróleo. Procurou fortalecer a capacidade de negociação da PDVSA (a empresa estatal venezuelana) com as multis. Além disso, constatando que as políticas das grandes potências haviam levado à redução brutal do preço internacional do petróleo (chegou a menos de 20 dólares o barril de 60 litros, isto é, petróleo estava mais barato que água mineral), assumiu a presidência da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e desenvolveu uma política de valorização do preço do óleo. Isso causou ódio e remordimento nos Estados Unidos e nos outros países ricos.



Chávez também tratou de retirar das classes dominantes locais parte dos benefícios que recebiam do petróleo para poder investir na melhoria de condição de vida da população trabalhadora, especialmente em educação, saúde, alimentação, habitação. Isso enfureceu os velhos setores dominantes venezuelanos. Também o governo direitista espanhol, então comandado por Aznar, se incomodava. Porque a Espanha, ainda que há muito derrubada de sua condição de potência colonialista na América Latina, mantém grandes investimentos e desenvolve grande influência política por aqui, na condição de país sub - imperialista.


Os americanos, auxiliados pelo governo de Aznar, conspiraram com as classes dominantes locais pela derrubada de Chávez em 2002. Deram o golpe, mas não levaram, impedidos por um levante popular associado a uma tomada de posição de parte das forças armadas em favor legalidade. Chávez reassumiu tendo muito mais clareza de quem eram e como atuavam os inimigos do povo venezuelano.
Aprofundou sua política de nacionalização do petróleo e de destinar os benefícios dessa riqueza para os mais pobres. Sabendo o tamanho da ameaça, tratou também de fortalecer as forças armadas venezuelanas, comprando armas para melhorar a qualidade da defesa do país, vizinho de uma super-armada e pró-americana Colômbia e de várias bases militares dos Estados Unidos. Como diz o velho ditado, "bobo é quem pensa que o inimigo dorme". Chávez também mudou as leis do país, promoveu a elaboração de uma nova Constituição, reformou a Justiça e o Parlamento, reforçando a participação popular.


Por tudo isso, Chávez é acusado de ditatorial. O interessante é que todas as mudanças promovidas por Chávez foram feitas à partir de eleições, plebiscitos e consultas à população. Desde 1998 realizaram-se dez eleições e plebiscitos no país. Nenhum governo em tempos atuais consultou tão freqüentemente a população como o venezuelano. Eleições cuja lisura não foi contestada por observadores internacionais.  Chávez ganhou todas e por larga margem. A oposição golpista, decidida a desmoralizar o regime político do país, esteve ausente de uma eleição. Comandou a abstenção, mas o povo votou em massa em Chávez e em seus candidatos ao Congresso. Resultado, com esse ato estúpido, apolítico, a oposição ficou sem representação nos poderes da República. E depois, saiu acusando Chávez de ditatorial.


 

Certamente Chávez tem lá seus defeitos. Mas para se adotar uma posição madura sobre ele e seu governo, para ver com clareza no meio desse tiroteio é preciso levar em conta o principal. Registro três aspectos:


1)Trata-se de um governo antiimperialista, construindo a independência de seu país e, por isso, um poderoso aliado de todos os povos latino-americanos na luta contra as políticas imperiais que nos empobrecem e mantêm dependentes. O Brasil e todos os outros países do continente têm sido beneficiados pelas posições e políticas do governo de Chávez.

2) Também é preciso ver que ele vem promovendo políticas de melhoria das condições de vida da população trabalhadora e mais pobre da Venezuela e estimulando seu desenvolvimento econômico.

3) Todas as grandes decisões de governo têm sido respaldadas em eleições legítimas. 
Atualmente, a irritação oligárquica contra Chávez alcança um novo ápice. Isso porque seu governo está propondo uma nova reforma constitucional. Uma das propostas é ampliar a possibilidade de reeleição do presidente da República. O povo venezuelano vai votar livremente e dizer se apóia ou não essa proposta. Se apoiar, Chávez poderá se reeleger outras vezes. E o povo venezuelano irá conferir no futuro se tomou uma decisão acertada ou não. É seu direito, é sua responsabilidade. Isso é democracia, é ou não é?


Ou democracia é comprar deputados e fazer passar uma emenda à Constituição no Congresso para permitir a reeleição do presidente, sem consultar a população, como fez FHC mudando a regra do jogo para ganhar um novo mandato em 1998? Isso é democracia ou é golpe? É golpe.  Mas para a imprensa oligárquica FHC é o democrata impoluto. E Chávez é que é ditador? Poupem-nos de tanta hipocrisia!

Autor: Carlos Azevedo,jornalista

11 novembro 2007

ANVISA interdita anticoncepcional Contracep

O anticoncepcional injetável contracep, da fabricante nacional EMS Sigma Pharma,teve sua venda proibida nacionalmente por 30 dias por determinação da ANVISA (agência nacional de vigilância sanitária). Em testes realizados pelo Instituto Adolfo Lutz verificou-se que a quantidade do hormônio sintético acetato de medroxiprogesterona presente em sua composição está reduzida em pelo menos 25% do prevista, o que certamente compromete sua eficácia na prevenção da gestação. As farmácias e drogarias devem retirar o medicamento das prateleiras e, segundo recomendação da anvisa, as mulheres que o utilizam há mais de quatro semanas devem procurar um médico para fazer teste de gravidez e usar preservativos até sair o resultado.

RESERVA ESTRATÉGICA

Agora se entende melhor o que pode ter motivado o presidente da República a perorar,em pleno debate sobre incertezas no fornecimento de gás natural,que era preciso "acreditar" que não haveria crise energética. Naquela altura, Lula já dispunha da informação que seu governo divulgaria com fanfarra no dia seguinte: a descoberta de uma província gigante de petróleo e gás -as estimativas vão de 5 bilhões a 8 bilhões de barris- no campo Tupi. Se esse potencial se confirmar, como parece provável, as reservas nacionais saltariam de chofre até 56%.

Não é pouca coisa. Mesmo que incapaz de aliviar a crise atual do gás e afastar o espectro de um apagão energético, pois a produção fica para 2014, seria tolo contemplar com descrédito a magnitude do achado. Basta mencionar que o campo, por conter óleo leve, a princípio permitiria interromper a importação desse tipo de petróleo, a qual custará US$ 5bilhões ao país neste ano.

Desaconselha-se o excesso de euforia, no entanto. A profundidade em que se encontra o óleo - 1.500m a 3.000 m de água,mais 3.000m a 4.000m de rocha - nada tem de trivial. A Petrobras dispõe de tecnologia para alcançar a camada pré-sal, como é chamado o estrato geológico em que se acha o combustível.Estima-se que a exploração na nova fronteira de 4.500 m a 7.000 m custe até três vezes mais que o usual em águas profundas.

Muita pesquisa será necessária,assim, para tornar competitivo o óleo de acesso difícil. Quando a tecnologia estiver madura,os preços vigentes no mercado internacional dirão se o campo será viável também do ponto de vista econômico. Na pior hipótese,Tupi poderia ficar inexplorado,como reserva estratégica.

Precisamente por suas dimensões,o novo campo altera todo o panorama em que se realizam as licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Demonstrando prudência, o Conselho Nacional de Política Energética decidiu, na mesma data da apresentação de Tupi, excluir da nova rodada de licitações da ANP aqueles 41 blocos em que há superposição com a nova província.Segundo a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que comandou o anúncio, trata-se de defender "o interesse nacional".

É precipitado concluir que a medida seja "estatizante". De uma perspectiva pragmática,não faz sentido abandonar à discrição empresarial decisões sobre a exploração de um volume assim estratégico apenas três semanas depois de anunciá-lo. A descoberta do novo campo muda o status energético do país e deveria levar, também, a um amplo debate sobre a modalidade de exploração mais adequada ao interesse
nacional.

Editorial do Folha de São Paulo(10/11/2007)

25 outubro 2007

A nobreza do espírito humano não está na coragem com que recebemos o infortúnio.Mas na forma como o recebemos e, apesar de tudo, somos capazes de continuar.Mesmo quando o mundo nos parece perdido.

João Pereira Coutinho, colunista do Folha de São Paulo.

As cabeças mais frias são as mais exaltadas nas grandes ocasiões.

Voltaire

02 outubro 2007

TRIBUTO À LETÍCIA

Poucos são os seres pelos quais dedicamos tanto carinho. Ela foi um deles. Era muito especial para mim. Preenchia, de certa forma, um vazio. Todas as noites, assim que eu chegava, ela logo vinha em minha direção: pulando e alegremente me abraçando. Ainda lembro-me quando a trouxe para morar comigo. De muito valente a assustada, mas foi apenas na primeira noite.Nada mais natural, não poderia ser diferente, afinal de contas foi a primeira vez. Pouco tempo passado e ela crescia cada vez mais. E junto com o tempo o meu amor tornava-se muito grande. Nunca pensei que nossas vidas, juntos, fosse tão curta. Ela partiu e nunca mais nos veremos.

Foi uma partida inesperada. Sinto que poderia ter feito algo. Talvez se tivesse dedicado mais atenção na sua primeira gestação...Porém não cabe lamentação agora. Na vida nem sempre a coisas acontecem como queremos. As minhas noites,indubitavelmente, não serão as mesmas. As saudades ficam daquela que em muitas noites foi minha única companheira. Quero, portanto, neste espaço, eternizar meu amor pela Letícia (apelido "Let") dizendo que suas lembranças são marcantes na minha alma. Um beijo, Letícia, daquele que sempre te amará. Este depoimento foi a melhor forma que encontrei par homenagear você, Letícia, minha eterna cadela vira-lata!!!!

Autor: Aliandro Carter.

 

09 setembro 2007

O hormônio do amor

A ciência nos surpreende a cada dia.Acaba de descobrir que o Viagra não é apenas o remédio milagroso capaz de devolver os mais relutantes mecanismos aos seus dias de alegria - o que já seria muito. Torna também o sujeito mais terno, sensível e humano, não somente com sua mulher ou namorada, mas de modo geral.


Isso foi constatado há pouco em experiências feitas com ratos na Universidade de Wisconsin-Madison (EUA). Os cientistas usaram ratos que ultimamente vinham apresentando problemas de ereção, tédio conjugal e irritabilidade social.


Submetidos ao Viagra, observou-se que esses ratos, em sua maioria, dedicaram-se a abraçar e beijar carinhosamente suas fêmeas depois do ato sexual. Nenhum deles acendeu um cigarro ou se virou para o canto e começou logo a roncar, como costuma ser a norma entre ratos. Os cientistas viram também como muitos dos ratos pesquisados superaram o tradicional egoísmo e se seguraram até que suas companheiras tivessem prazer. E, para completar, houve ratos que, minutos depois do ato, saltaram da cama e foram alegremente para a cozinha lavar os pratos do jantar.


Nada de misterioso nisso, e engana - se quem pensa que o Viagra é só uma versão "high tech" do chá de catuaba ou da sopa de piranha. Na verdade, é um dos nomes comerciais do genérico sildenafil, substância que triplica a liberação da oxitocina no cérebro. A qual, por sua vez, é um hormônio chamado na intimidade de "hormônio do amor", por sua influência na construção de laços afetivos entre os indivíduos.


Mas é cedo para tirar conclusões definitivas. As experiências feitas até agora se limitaram aos ratos. E,quando se trata de tentar aperfeiçoar suas relações afetivas, o ser humano, como sabemos, é um osso duro de roer.


Autor: Ruy Castro

12 agosto 2007

MISTÉRIOS


 

Sono Profundo

Noite Silenciosa

Sol Ardente

Lua Brilhante

Céu Imenso

Nuvem Cinzenta

Sonho Indistinguível

Coração Sombrio

Cérebro Indescritível

Tempo Fluxível

Luz Onda-Partícula

Universo Inflacionário

Matéria Escura

Estrela Longínqua

Flutuação Quântica

Vida Finita

Morte Indomável

Deus Eterno

Horizontes Sem Fim!

02 agosto 2007

Desastre Humanitário

A aventura do governo de George W. Bush no Iraque é séria candidata ao título de maior desastre político-militar das últimas décadas.

A intervenção, cujos objetivos declarados eram livrar o mundo das armas de destruição em massa do ditador Saddam Hussein e levar a democracia, o respeito aos direitos humanos e a prosperidade ao Iraque, revelou-se um completo engodo por qualquer ângulo que se análise.

As armas de destruição em massa não existiam, e a invasão lançou o país numa guerra sectária que já reclamou a vida de cerca de 70 mil civis iraquianos. A violência diuturna mina os esforços para a formação de um governo efetivo e faz o país mergulhar numa crise humanitária sem precedentes.

Relatório recém-divulgado pela ONG britânica Oxfam traça um panorama sombrio. Cerca de 40% da população se encontra abaixo da linha de pobreza e 15% não têm o que comer regularmente. A subnutrição já atinge 28% das crianças iraquianas, contra 19% antes da invasão (2003), época em que a situação já se encontrava bastante deteriorada pelos dez anos de embargo internacional contra a ditadura de Saddam Hussein.

mente. A subnutrição já atinge 28% das crianças iraquianas, contra 19% antes da invasão (2003), época em que a situação já se encontrava bastante deteriorada pelos dez anos de embargo internacio'nal contra a ditadura de Saddam Hussein.

Também é inquietante que 4 milhões de iraquianos (15% da população) tenham se tornado refugiados, 2 milhões no exterior (principalmente na Síria e na Jordânia) e 2 milhões no próprio Iraque. São os que enfrentam as condições mais precárias.

A prova final do fiasco iraquiano está na incapacidade dos Estados Unidos de recomporem a infra-estrutura do país. Apesar de a Casa Branca gastar US$ 2 bilhões por semana no Iraque (consideradas apenas as despesas militares e com a reconstrução), 70% dos iraquianos não têm acesso a água potável (eram 50% em 2003) e os bagdalis ainda recebem apenas duas horas de eletricidade por dia. E a situação, vista de hoje, só tende a piorar.

Editorial da Folha (01/08/07).

18 julho 2007

Pressão fracionada

É ilógico esperar que a indústria de remédios faça investimentos para vender menos. De modo análogo, farmácias e drogarias, que são remuneradas com uma porcentagem do valor de suas transações, tampouco têm interesse em que o mercado de medicamentos fracionados se torne uma realidade.

A venda fragmentada, que permite ao paciente adquirir a quantidade exata de remédio de que precisa, é boa para a saúde pública e para o consumidor, que pouca condição tem de influir nesse mercado. Daí a necessidade de o poder público exigir da indústria que coloque medicamentos fracionados nas prateleiras das farmácias.

Preocupa a aprovação pela Câmara dos Deputados de um substitutivo ao projeto de lei de medicamentos fracionados que dispensa os laboratórios da obrigatoriedade de produzi-los. Se o mecanismo não for reintroduzido, a venda na dose desejada pelo consumidor não sairá do papel.

A idéia de fracionar os medicamentos é inatacável. O paciente economiza por não comprar remédios desnecessários -gastar menos com drogas também é sinônimo de maior aderência ao tratamento. Ao deixar de estocar em casa sobras de remédios, o consumidor fica menos sujeito a riscos como a automedicação e a ingestão involuntária.

Esse último ponto pode parecer desimportante, mas não é. Dados do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) do Hospital das Clínicas da USP indicam que pouco mais de 45% dos quadros de intoxicação assistidos pelo órgão são provocados por remédios, que superam em muito itens como produtos químicos, materiais de limpeza, agrotóxicos e drogas ilícitas.

É preciso que o Brasil siga os bons exemplos do mundo e desenvolva seu mercado de fracionados. E o único modo de fazê-lo é criar a oferta e estimular médicos e consumidores a procurá-la.

Editorial Folha de São Paulo (17/jul/2007)

13 julho 2007

Ninho de bactérias


Estudo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) divulgado pela Folha mostra que infecções comuns em UTI’s e hospitais do país vêm sendo tratadas com antibióticos inadequados, devido ao fenôme­no da resistência bacteriana.

Embora preocupante, a notícia não é uma novidade. A resistência de bactérias a antibióticos é a prova viva de que a teoria da evolução postulada por Charles Darwin no século 19 está correta. De resto, quanto mais de ponta for uma UTI, maiores tendem a ser suas dificuldades com microrganismos resistentes.

Um meio de enfrentar o problema é ampliar iniciativas como a da Anvisa de traçar o perfil de resistência das bactérias, possibilitando ao médico entrar antes com a droga mais indicada. Vale lembrar que o uso indiscriminado de antibióticos - em especial os de amplo espectro - é um dos fatores que mais favorecem o surgimento da resistência.

O elenco de medidas possíveis não pára aí. Alguns hospitais já exigem que o médico justifique em formulário específico a escolha de determinada droga. Ela só será ministrada se a comissão de controle de infecção da instituição aprovar a conduta.

Também seria interessante voltar a utilizar antibióticos antigos. Como a manutenção da resistência implica um custo energético para as bactérias, ela não costuma ser mantida por muitas gerações. Drogas que deixaram de funcionar podem voltar a fazê-lo a melhor preço do que o dos novos fármacos promovidos pelos laboratórios - política comercial de assédio aos médicos que também favorece o uso inadequado de antibióticos.

Essas são apenas algumas das várias medidas documentadas na literatura. Só que todas elas perdem muito da eficiência por­ que profissionais de saúde mui­tas vezes ainda descuidam do básico, como a necessidade de lavar bem as mãos antes e depois de atender cada paciente.

Editorial do Jornal Folha de São Paulo
"A idéia que não procura converter-se em palavra é uma má idéia; e a palavra que não procura converter-se em ação é uma má palavra".
Gilbert Keith Chesterton, escritor inglês
Senhora Liberdade

Uma senhora não merece assobios.Questão de educação. Ou, como dizia Wilde pela boca de um personagem, as manei­ras são anteriores à moral. O público que esteve presente no circo das Se­te Maravilhas do Mundo não con­corda com a tese e visivelmente não aprendeu as maneiras em casa. Bas­tou esperar pelo momento em que a Estátua da Liberdade, indicada para a lista final, apareceu nos écrans do estádio da Luz, em Lisboa. O estádio desabou em apupos e pateadas. Co­mo na canção, "the lady is a tramp".

Pena. Concordo que a Estátua da Liberdade não é prodígio escultóri­co ou arquitetônico. Ao vivo, é até um poderoso anticlímax. Tamanho pequeno. Tosca de formas. Inex­pressiva como objeto artístico. Comparada com os eleitos, perde em pontuação técnica ou estética, apesar de seis deles serem produto de sociedades bárbaras ou escrava­gistas - um pormenor histórico que não incomoda as consciências humanitárias (e antiamericanas) do público. Ou julgavam que a China imperial, a Índia muçulmana, as ci­vilizações maia e inca, os nabateus do Oriente Médio e a Roma dos Cé­sares eram um parque de diversões?

Mas a Estátua da Liberdade não é, em rigor, uma estátua Ela é um sím­bolo, uma história, uma promessa
: a promessa de que, apesar de tudo, e de tanto, seria sempre possível reco­meçar. Eis a promessa que recebeu milhões de seres humanos na chega da a Ellis Island. E que tinham na es­tátua – tamanho pequeno, tosca de formas, inexpressiva como objeto artístico - a primeira senhora gentil em dias ou meses de viagem agreste. Nos filmes de Coppola ou nas pági­nas de McCourt, a estátua confun­de-se com o olhar grato do imigran­te que a encontra pela primeira vez, ou pela milésima vez, contando com todas as vezes em que ela aparecia nos sonhos.

A estátua era um porto de chega­da, sim. Mas era também um porta de partida: a última visão de casa pa­ra meio milhão de rapazes que não regressaram da Europa. Cem mil não regressam em 1918. Quatro­centos mil não regressaram em 1945. Mas a Europa já esqueceu es­ses tempos sombrios em que, sitiada por uma máquina de guerra desu­mana e brutal, olhava para essa está­tua - tamanho pequeno, tosca de formas, inexpressiva como objeto artístico - e esperava que uma tocha de liberdade a viesse salvar e iluminar. Como, na verdade, ela veio. Duas vezes.

E para quê?

Para nada: em direto da capital do meu país, a ignorância e a bestialida­de da multidão mostraram e com­provaram ao mundo como foi inútil o sacrifício. E como o ódio à América não se distingue,hoje, de um ódio à humanidade: essa humanidade que, falando italiana ou alemão, portu­guês ou francês, iídiche ou japonês, foi acolhida pelo mais nobre, e também por isso o mais belo, de todas as monumentos possíveis.

Disse que as maneiras são anterio­res à moral. Mas, quem não tem ma­neiras, não tem moral. A memória da Europa não é apenas curta. É curta e ingrata. Nessa ingratidão, existe a marca do seu caráter. Mas existe também o prenúncio do seu triste e solitário futuro.

Autor: João Pereira Coutinho, colunista da Folha de São Paulo.

12 julho 2007

Até onde chegamos

No planeta, ao contrário do que sugerem alguns, há espaço para que todos convivam de forma pacífica e decente. A terra garante víveres pra toda nossa geração. O problema é que no afã de atingir esse nível de vida fomos buscando veredas que acabaram por nos levar a perder o caminho adequado.
A avareza invadiu a mente humana, corrompendo o homem e levando-o a um estado permanente de ódio, miséria e sangue. Somos escravos da nossa própria criação. A industrialização aumentou a produção e com isso também a ambição. O avanço científico tornou – nos prepotentes. A nossa intelectualidade distanciou – nos dos sentimentos mais gregários, criando seres selvagens
Há no mundo uma carência enorme de humanismo, há excesso no pensar e falta no sentir. É preciso repensar nossos ideais e utopias, mas acima de tudo é urgente a difusão de afabilidade e benevolência. Caso contrário, não reencontraremos o caminho correto, perdido em veredas, e a vida ficará aprisionada num círculo de desavenças e conflitos.